Lendas de Sesimbra
- Raposima:
Numa noite de temporal, em que o ruído do mar se ouvia no castelo, em que os relâmpagos iluminavam os areais e a chuva fustigava tudo e todos, bateram, altas horas, à porta da humilde casa da Raposima.
Era um embuçado a chamá-la para acudir a uma mulher que estava em trabalho de parto havia muitas horas e, segundo ele, estaria às portas da morte, lá para os lados da Pedra Grande.
A Raposima disse que não poderia ir, pois o tempo estava horrível e ela nem sequer sabia para onde a ia levar e tinha medo.
Depois de muito instada, comoveu-se com as súplicas do homem e lá o acompanhou.
(Quem esteja de frente para o forte de Sesimbra virado para o mar, o areal do lado esquerdo estendia-se, naquele tempo, até uma falésia muito alta que entrava pelo mar dentro, onde hoje há só cimento armado e condomínios fechados...)
Lá foram a rudes penas, pelo areal, encharcados e batidos pelo vento. Algumas vezes Raposima quis voltar para trás. Mas o homem suplicava, chorava e prometia que ela seria a mulher mais rica do mundo se lhe salvasse a mulher e o filho, que era o primeiro.
Chegaram, por fim, à Rocha e o homem bateu como quem bate a uma porta.
A Rocha abriu uma passagem e a Raposima viu-se dentro de um palácio, que diremos nós, das Mil e Uma Noites. Um luxo como ela não poderia imaginar filha de gente pobre, analfabeta e cujos limites acabavam na linha do horizonte do mar de Sesimbra.
No meio do deslumbramento viu uma linda princesa moira que estava a parir no maior desespero e sofrimento.
Raposima arregaça as mangas e vá de ajudar e fazer o que sabia. Passam horas de angústia, mas por fim, lá nasce um lindo menino. Choram todos de alegria e o pai leva a Raposima a uma sala onde se amontoavam pedras preciosas, ouro, pratas e joias. Perante o seu pasmo, o homem disse que levantasse o avental e fizesse uma abada do que quizesse mas...com a condição de que NUNCA dissesse o que vira e donde lhe vinha a riqueza porque se não...
A tempestade amainara e o dia ia raiando quando Raposima sai da Rocha e corre para casa como louca para esconder o tesouro onde ninguém o visse, mas toda a gente a martirizava com perguntas a que ela durante muito tempo resistiu. Porém, não podendo mais calar, confessou a uma das filhas o seu segredo.
Quando quis provar que tudo era verdade, foi buscar o tesouro. Abriu o esconderijo e só restavam pedras sim, mas de carvão!
Até à invasão da "urbanização" a Rocha passou a chamar-se Pedra da Moira e a Raposima foi continuando a ajudar a nascer os filhos dos pescadores, recebendo em troca algum peixe e outras modestas pagas. Morreu velhinha sempre acreditando que conhecera a Princesa Moira.
E é sempre com emoção que conto esta história aos meus netos, pela proximidade da vida da Raposima connosco, pelo sonho e fantasia !
Oh e como eu gostava de Moiras Encantadas... e das histórias do Mar, das Sereias, dos Pescadores de sonhos, dos naufrágios e salvamentos miraculosos e daquele meu Avô Luís, ateu, republicano e maçon, que contava histórias de moiras encantadas como se nelas acreditasse.
- Sr. Das Chagas:
No séc. XVI houve uma revolta contra a igreja católica. Nessa altura a rainha mandou encaixotar todas as imagens que estavam nas igrejas e deitá-las ao mar.
Arrastados pelas correntes os caixotes foram levados mar fora e foram ter aos sítios mais diversos. Um deles veio ter à praia de Sesimbra.
Estavam alguns pescadores à beira mar quando viram aquele caixote a boiar junto à pedra que fica do lado nascente da fortaleza.
Trouxeram-no para a praia, abriram-no e viram uma imagem de Jesus Cristo e Ficaram muito admirados sem saberem o que fazer com ela.
Pensaram um pouco e trouxeram-no para o terreiro da Misericórdia, onde hoje em dia é o jardim, mas não tinham sítio onde o colocar. A imagem não ia ficar no chão, nem à chuva nem ao vento, por isso resolveram levantar uma tenda e fingir que aquilo era uma pequena capela, pois um dia far-se-ia uma a sério.
Todos repararam que faltava um braço à imagem, mas também sabiam que no caixote não estava. E a imagem continuou assim na pequena capela improvisada onde toda a gente ia venerá-la. Ora era costume, e ainda hoje há quem o faça, ir à praia buscar lenha para levarem para a lareira. Naquele dia, uma velhinha apanhava uns pequenos troncos na praia. Ao chegar a casa colocou os troncos no braseiro e sentou-se ali ao pé para se aquecer.
Começou a reparar que toda a madeira ardia menos aquele tronco mais grosso. A ele nem o lume chegava perto.
Intrigada pegou nele e mirou-o com atenção. Viu, então, que aquele pedaço de madeira tinha a forma de um braço.
Correu até à capela, mostrou-o ao padre e concluíram que aquele tronco especial era realmente o braço da imagem do Senhor Jesus.
Todos gritaram “milagre”, prometeram fazer todos os anos uma festa em honra do Senhor e mandaram edificar a capela da Misericórdia onde fizeram um altar para colocar a imagem do Senhor Jesus das Chagas
Todos os anos no dia 4 de Maio faz-se uma procissão que atravessa as ruas da vila de Sesimbra e que no largo da Marinha abençoa o mar para que este nunca falte com o peixe que era, até há poucos ano, o principal sustento das gentes de Sesimbra.»
- Lenda da Princesa Moira:
Numa noite de temporal, em que o ruído do mar se ouvia no castelo, em que os relâmpagos iluminavam os areais e a chuva fustigava tudo e todos, bateram a altas horas, à porta da humilde casa de uma parteira.
Era um homem a chamá-la para acudir a sua mulher que estava em trabalho de parto havia muitas horas e, segundo ele, estaria às portas da morte, lá para os lados da Pedra Grande.
A parteira disse que não poderia ir, pois o tempo estava horrível e ela nem sequer sabia para onde a ia levar e tinha medo.
Depois de muito tempo, comoveu-se com as súplicas do homem e lá o acompanhou.
Lá foram eles, pelo areal, encharcados e batidos pelo vento. Algumas vezes a mulher quis voltar para trás, mas o homem suplicava, chorava e prometia que ela seria a mulher mais rica do mundo se lhe salvasse a mulher e o filho, que era o primeiro.
Chegaram, por fim, à Rocha e o homem bateu como quem bate a uma porta.
A Rocha abriu uma passagem e a senhora viu-se dentro de um palácio, que diremos nós, das Mil e Uma Noites. Um luxo como ela não poderia imaginar, filha de gente pobre, analfabeta e cujos limites acabavam na linha do horizonte do mar de Sesimbra.
No meio do deslumbramento viu uma linda princesa moira que estava a dar à luz no maior desespero e sofrimento.
A parteira arregaça as mangas e vá de ajudar e fazer o que sabia. Passam horas de angústia, mas por fim, lá nasce um lindo menino. Choram todos de alegria e o pai leva a senhora a uma sala onde se amontoavam pedras preciosas, ouro, pratas e jóias. Perante o seu espanto, o homem disse-lhe que levasse o que quisesse, mas com a condição de que NUNCA dissesse o que vira e donde lhe vinha a riqueza.
A tempestade acalmara e o dia ia raiando quando a parteira saiu da Rocha e correu para casa como uma louca, para esconder o tesouro onde ninguém o visse, mas toda a gente a martirizava com perguntas a que ela durante muito tempo resistiu. Porém, não podendo mais ficar calada, confessou a uma das filhas o seu segredo.
Quando quis provar que tudo era verdade, foi buscar o tesouro e abriu o esconderijo, e viu pedras sim, mas de carvão!
Apesar disso, morreu velhinha, sempre a acreditar que conhecera uma Princesa Moira.»
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